ENTREVISTA COM CARLOS STOCK: DA INFÂNCIA NO NAMIBE À ARTE URBANA NO BAIRRO DA TORRE, EM CASCAIS
Texto: Entrevista realizada por Otávio Raposo, texto de Pedro Varela.
Fotos/vídeo: Vários
Carlos Stock, artisticamente conhecido como Kiã, nasceu em Portugal em 1993. Filho de mãe angolana e pai são-tomense, passou a infância em Angola, entre o Namibe e Luanda, regressando a Portugal aos 11 anos. Cresceu e vive no Bairro da Torre, em Cascais, onde desenvolveu a paixão pelo desenho e pela pintura.
Atualmente, desenvolve trabalho de intervenção social em paralelo com a sua prática artística, explorando diferentes técnicas e suportes.
Dirigente da associação juvenil Somos Torre, organizador do Festival Infinito (evento anual de arte urbana) e técnico num projeto do Programa Escolhas, Carlos Stock tem trilhado os seus caminhos na cena artística portuguesa, com projeção nacional cada vez maior e participação em exposições no MU.SA e no MAAT.
Nesta entrevista, conta-nos a importância do território onde cresceu para as suas criações artísticas.
E: Conta-nos um pouco sobre o teu passado.
Carlos Stock: Eu nasci em Portugal em 1993 e, com um ano de idade, fui para Angola com a minha mãe. Não era suposto nascer em Portugal; devia ter nascido em Angola. Vivi no Namibe e também em Luanda. Com 11 anos, voltei para Portugal e fiquei a viver com a minha avó. Fico muito contente por ter tido esses dois lados. Em Angola, vivenciei coisas incríveis e, aqui, a adolescência também foi boa. Tenho mantido contacto com Angola, mas, infelizmente, nunca consegui voltar ao Namibe e relembrar certas coisas que vivi lá. O Namibe é uma cidade próxima de um deserto, e eu lembro-me de que, na minha infância, ia muitas vezes ao deserto. O meu pai levava-me muitas vezes lá. E depois, tem um fenómeno natural incrível, que é de um lado o deserto e do outro lado o Atlântico. Isso é uma coisa visualmente muito diferente. Depois, com 8 anos, mudámo-nos para Luanda e vivi lá durante 3 anos. Em Luanda, já era um pouco diferente. Fui-me adaptando, mas também tenho boas memórias de Luanda. E, depois, com 11 anos, vim para Portugal.
E: E como foi crescer no Bairro da Torre, em Cascais?
Carlos Stock: Foi bom! Penso que foi um crescimento com qualidade, principalmente na adolescência, que é uma fase mais delicada. Com o passar do tempo, fui percebendo as dificuldades do território, mas nunca me faltou o básico. Sempre tive bons pilares no contexto familiar, algo que considero importante.
E: Conta-nos como te foste ligando à arte?
Carlos Stock: Na minha família não há ninguém ligado ao mundo artístico. Eu lembro-me que tinha bastante gosto e à vontade para o desenho. E era muito dedicado e persistente. Podia não estar a sair bem, mas eu estava sempre a fazer. Se tu estás a fazer o mesmo exercício todos os dias, em algum momento ganhas habilidade. Eu acho que foi isso que aconteceu. Houve momentos em que parei: fiquei 5 anos sem agarrar num lápis para desenhar. Mas depois voltava e já tinha aquele à vontade. Na escola, tinha muito interesse pela parte artística, até porque havia outros rapazes que já tinham essa inclinação. Então, fui desenvolvendo: no secundário, acabei por ir para artes e, depois, fui para um curso técnico-profissional de design gráfico. Durante a Pandemia, em casa, voltei a ganhar o hábito de desenhar. Ia trabalhando, ia fazendo, ia tentando… O cérebro tem memória, apesar de ficares um longo tempo sem desenhar. Já tinha o hábito, então foi fácil recuperar. Percebi, então, que podia tentar a vida artística. Eu já fazia parte do núcleo que organizava o Festival Infinito aqui no bairro; havia alguns artistas a trabalhar aqui na Torre. Cheguei à conclusão de que podia ser uma alternativa para mim, e comecei a pintar, comecei no papel, depois pintei uma porta, pintei outra porta, pintei uma placa em madeira, até que depois pintei o meu primeiro muro.
E: Como é que o Festival Infinito influenciou esse processo de entrada no mundo das artes?
Carlos Stock: Ao ver os artistas a trabalhar no Festival Infinito, percebi quais eram as ferramentas necessárias para fazer a transição de pintar no papel para pintar numa parede ou em outra superfície. Eu já falava com o pessoal da Associação Somos Torre e disse-lhes que tinham de me arranjar uma parede para fazer o meu primeiro muro. E eles respondiam-me: “Ainda tens de treinar mais um bocadinho”. Foi esse o processo. Comecei então a desenhar e a pintar portas, placas de madeira e outros materiais. Depois, passei a pintar em muros, realizei a minha primeira intervenção nesse estilo em 2020. Durante esse período da pandemia, a Câmara de Cascais lançou as Bolsas de Promoção de Talento, nas quais também participei. Foi aí que nasceu aquele desenho da mão.
E: Conta-nos a história de como os materiais que sobravam do Festival Infinito se tornaram importantes para ti.
Carlos Stock: Estava numa etapa mais inicial. Muitas vezes não tinha materiais, latas ou pincéis, e o Festival Infinito acabou por ser importante porque os artistas muitas vezes deixavam o material. Faziam as peças e restavam bastantes latas de spray e baldes de tinta, e eu guardava. E sempre que precisava de pintar alguma coisa, ia utilizando aquele material. Por vezes, não tinha as cores de que gostava, não é? Não eram cores que eu amava, mas era o que eu tinha, então acabava por adaptar-me e ia pintando, fazendo coisas. E os primeiros trabalhos, as primeiras tentativas, foram feitos com o material dos artistas do Festival Infinito. As portas eram coisas que encontrava encostadas no lixo, eu pegava e levava. Porque eu não tinha muros, não é? Tinhas que pedir autorizações. Tens de ir aos prédios pedir autorização a cada pessoa. Se for um prédio da Câmara, tens que enviar um email à Câmara, e era muito difícil obter essas autorizações; então, a solução foi pintar coisas que eu encontrava na rua: portas, placas de madeira, televisões ou frigoríficos.
E: E como passaste do Bairro da Torre para exposições e galerias?
Carlos Stock: Houve um período em que eu já não tinha paredes para pintar e então comecei a fazer os primeiros quadros. A primeira exposição que eu participei foi em 2021 com o Coletivo Corrente de Ar. Era uma open call, tinhas de enviar o teu trabalho, explicar o conceito e tudo. E eu mandei. E foi a primeira vez, eu nunca tinha participado num evento deste tipo. O meu trabalho foi aprovado e fiquei super contente. Fomos para a galeria e aquilo era uma exposição de pessoas que também não eram muito conhecidas, mas que tinham vontade de criar algo. No dia de abertura, foi tanta gente, era uma fila que batia duas esquinas. Saí dali feliz. Depois voltei ao bairro e comecei a pintar eletrodomésticos. Mesmo pela necessidade de querer pintar e não ter paredes. Nós temos muito ferro-velho no bairro. O hábito do ferro-velho está presente em qualquer bairro. São pessoas que pegam em eletrodomésticos, tiram o cobre de dentro do frigorífico ou da televisão ou do rádio para depois venderem. Depois fica a carcaça ali abandonada. Então, comecei a utilizar esses equipamentos, comecei a pintá-los. E pintei um frigorífico, um frigorífico amarelo. Esse frigorífico também foi interessante, porque houve a participação dos miúdos aqui da comunidade; fizeram ali uma cena abstrata e, por cima, eu fiz um desenho. Tirei umas fotos, coloquei na internet e o pessoal gostou. Entretanto, como já participava dessas exposições, surgiu a oportunidade de integrar uma no MU.SA (Museu das Artes de Sintra), destinada a artistas que viviam em zonas periféricas. Ligaram-me: “Olha, temos aqui esta exposição no MU.SA, se tu quiseres participar, podias trazer uma peça que gostes para dar a conhecer às pessoas”. E eu, como já tinha o frigorífico, levei o frigorífico para a exposição. Era uma peça diferente. Agradeço bastante ao pessoal que esteve envolvido na organização, porque foi uma oportunidade incrível que me deu mais vontade de desenvolver outro tipo de coisas. Se calhar, em vez de um frigorífico, já podia passar para outro tipo de equipamento. Esta exposição foi o gatilho para outra exposição na qual participei: Interferências no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Lisboa. O MAAT foi incrível. Toda a gente conhece o MAAT. E para nós também foi interessante, até pelo tipo de exposição que era, não era só uma coisa de arte, mas também era bastante informativa e tinha muito a ver com artistas da periferia.
E: E qual foi a peça que levaste para a exposição coletiva Interferências no MAAT?
Carlos Stock: A minha peça era um “triciclo tipo mata-velhos” e pertencia a um senhor que foi pescador aqui do bairro. Víamo-lo sempre com aquela mota, que mais tarde estragou-se e ficou abandonada. E eu ia olhando para ela, ali parada, e achei: “Já pintei um frigorífico; se calhar, esta mota pode ser a próxima peça”. E fez sentido para mim porque o nosso bairro era um bairro de pescadores, era algo que representava bastante a Torre. Quem vier ao nosso bairro vai ver que os nomes das ruas estão ligados ao mar, por ser um bairro de pescadores. Foi engraçado porque eu, africano, de uma geração que surgiu depois dos pescadores, retratava uma realidade anterior à minha: a vida da pesca. A peça chama-se “Kota Gil” e é, de certa forma, um retrato dele. A mota foi uma ferramenta de auxílio para o senhor na pesca, mas depois estragou-se. Quase como se quiséssemos dar-lhe nova vida, a peça funciona como homenagem ao seu antigo dono. Eu fui ter com o senhor Gil, contei-lhe o que queria fazer e ele ficou contente. Perguntei-lhe se podia fotografá-lo e fotografei-o. Ele contou um bocadinho da sua história: das histórias com a sua mota. Depois comecei a desenvolver a peça. A mota estava lá no MAAT e ela tinha vários planos do rosto do senhor. Tinha o rosto, mas do rosto vinham vários peixes que davam a volta à mota. Eu venho da arte urbana, que é uma arte que se faz na rua, mas eu estava a levar uma peça para dentro de uma galeria. Então, eu estava a tentar preservar um pouco dessa identidade da rua. Como aquela mota foi encontrada abandonada na rua, dentro do MAAT a peça foi colocada sobre estruturas, como se estivesse realmente abandonada. Mesmo indo para dentro do MAAT, tentei, de alguma forma, preservar essa atmosfera de rua, da street.
E: O que tentas transmitir com as tuas obras?
Carlos Stock: Tens as técnicas, a forma como tu pintas, mas depois é necessário começares a pensar no tipo de conceitos que tu vais desenvolver a partir das técnicas que tu tens. E eu, inicialmente, como pintava muito na rua, nunca via, em concreto, um tema ou um pensamento crítico que eu pudesse trazer para as peças. Eu pintava na rua e pintava muito o que as pessoas me pediam. Depois, quando eu comecei a pintar mais quadros, naturalmente eu tinha uma tendência para pintar muito a imagem mais africana. Tentava retratar bastante os grupos étnicos que vivem em Angola ou noutros países africanos, mas, inicialmente, eram apenas testes. Era uma forma de perceber, ao pintar, como as imagens iriam sair, como ficariam visualmente, se eu gostava ou não… e pronto. A minha ideia e o que quero para o futuro é desenvolver uma identidade própria nas minhas representações. Isso passa muito por conectar a cena mais ancestral de Angola com os processos de globalização que se fazem sentir com mais força aqui em Portugal.
Link para aceder à página de Carlos Stock (Kiã) https://www.instagram.com/kiam______/
Crédito Fotos:
Imagem 1 – Carlos Stock, fotografia de Pedro Varela.
Imagem 2 – Visita ao Bairro da Torre com Robz com pintura de Kiã, fotografia de Beatriz Lacerda.
Imagem 3 – Obra de Kiã, fotografia de Carlos Stock.
Imagem 4 – "Kota Gil" no Interferências.
Imagem 5 – Graffiti de Gonçalo Mar e Kiã no Bairro da Torre, fotografia de Pedro Varela.
Imagem 6 – "Bem Vindo aos ZUS" de Kiã, fotografia de Carlos Stock.